Fico a ouvir cada som,
infindo ou fundo,
que me acata ou alcança.
Desconfio, mais e mais,
de cada um. Sem travas,
transam sem fim...
Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"
quinta-feira, 25 de novembro de 2010
PRINCÍPIO REVERSO
Toda estória tem dois lados,
como a moeda da própria história.
Como o dia e a noite,
como o gelo e o fogo:
verão, inverno, céu e inferno.
Toda memória tem dois fados,
como a beleza e a falácia da glória.
Como o imóvel e o veloz,
como o crédulo e o néscio:
lume, escuro, verão e inverno.
Toda história tem dois fardos,
como a sacola e o silêncio do viajante.
Como a tristeza e a grandeza do nascer,
como a pura luz e o tempo voraz:
espaço, sal, sangue
e o infinito terror do viver.
- Jairo De Britto -
'VERDADE DE BRINQUEDO'
A minha verdade
é o Atlântico Amadeus Oceano:
uma saudade tão simples
que não alcanço ou espanto.
A minha verdade
é Flora pura, verbo Purim:
inteira Jazz; Moura
Paulo, Leonardo - princípio e fim.
A minha verdade
é feita de prima Vera: uma Itália
nortista, único Moai em Santiago;
esmeraldas na Serra da Mantiqueira.
A minha verdade
é tão infame quanto Rimbaud:
um espantalho, um alaúde,
"O Novo Arrabalde": Vitória desnuda.
Jairo de Britto
MOVIMENTOS
Desdobrar-se,
descobrir-se.
Levantar o tapete do Tempo:
espiar e expiar-se!
Jairo de Britto,
em "Dunas de Marfim"
FARRA DE CORES
A Primavera se avizinha:
raízes e letras
exigem sua hora e tempo.
Caminho pelo jardim.
Espinhos do alfabeto,
Azaléias da alma insone.
Caminho entre seixos.
Busco o perfeito aquário,
Onze-horas e algas
orientam os peixes.
Pedras, nuvens e letras noir.
Tudo anuncia a Primavera:
discreta, Almíscar, esperta.
Em torno dos homens
entorna suas flores, perfume,
brisa, maresia e malícia.
Palavras azuis sobre o mar.
Sobre o marfim, música,
frases, orquídeas raras.
II
A Primavera caminha anônima
como homens e mulheres na rua,
afoita com tantas luas.
A Primavera espraia
graça entre samambaias,
escala buganvílias, assanha roseiras.
Espio, solene, sapos e flores;
espreito folhagens, livros antigos.
Refaço e traço veredas,
espelho versos contra o sol.
Entre seios de nuas mulheres,
abrigo meus olhos úmidos:
Vermelhos antúrios
em fins de madrugada.
Calculo frações primas e veras;
pernas, seios, trepadeiras e lírios.
Estrelas avessas da manhã,
casuarinas de sonhos.
III
A Primavera se avizinha:
enlouquece românticos e céticos,
com sua farra de cores;
seu derrame de felicidade.
Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"
CIGANOS NA GIRA
Cartas, braceletes de prata,
com planos de fundo reais.
com planos de fundo reais.
Carros e igrejas,
com vitrais a prumo,
desenham meus dias
de abismos desertos.
com vitrais a prumo,
desenham meus dias
de abismos desertos.
Cartas, argolas de ouro,
cavalos com adornos de cobre.
cavalos com adornos de cobre.
Carros e tendas, com fitas
e velas de cores tantas,
povoam minhas noites
de ciganos despertos.
e velas de cores tantas,
povoam minhas noites
de ciganos despertos.
Cartas, cordas e colares,
com anos e aros de contas azuis,
habitam minhas noites
de sonoras fogueiras.
com anos e aros de contas azuis,
habitam minhas noites
de sonoras fogueiras.
Cofres e arcas, moedas,
arco-íris e sonhos,
refletem meus pares
de planos diversos.
arco-íris e sonhos,
refletem meus pares
de planos diversos.
JAIRO DE BRITTO
JAIRO DE BRITTO
Filho de mãe pernambucana e pai carioca, nasceu em Vitória (ES) em 1952. É jornalista há 35 anos. Foi aluno dos cursos de Letras, da Universidade Federal do Espírito (Ufes), e Psicologia da Universidade "São Judas Tadeu" (USJT), em São Paulo. Fez vários cursos breves, sobre editoração e áreas afins, na Universidade Estadual de São Paulo (Unesp), e de extensão na University of California at Los Angeles (UCLA). Na década de 70, foi professor de Inglês e Português para Estrangeiros em institutos de línguas.
Desde 1970, publica poemas, crônicas e contos em jornais, suplementos literários e revistas de vários Estados. Seus poemas estão em antologias lançadas no ES, Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais. Em Vitória lançou, em 1978, a revista "Sim", pioneira na veiculação exclusiva de Poesia e Ficção em seu Estado. Foi um dos fundadores e primeiro presidente da Associação Capixaba Escritores. Integrou a equipe responsável pela implantação da TV Educativa no ES, como produtor e apresentador.
Os poemas constantes desta antologia, que ele dedica à memória dos seus pais, Claudionor de Britto e Natalina Morais, e aos seus filhos Arthur Ruy de Britto e Leonardo Ramon de Britto, são do livro inédito "Dunas de Marfim".
Filho de mãe pernambucana e pai carioca, nasceu em Vitória (ES) em 1952. É jornalista há 35 anos. Foi aluno dos cursos de Letras, da Universidade Federal do Espírito (Ufes), e Psicologia da Universidade "São Judas Tadeu" (USJT), em São Paulo. Fez vários cursos breves, sobre editoração e áreas afins, na Universidade Estadual de São Paulo (Unesp), e de extensão na University of California at Los Angeles (UCLA). Na década de 70, foi professor de Inglês e Português para Estrangeiros em institutos de línguas.
Desde 1970, publica poemas, crônicas e contos em jornais, suplementos literários e revistas de vários Estados. Seus poemas estão em antologias lançadas no ES, Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais. Em Vitória lançou, em 1978, a revista "Sim", pioneira na veiculação exclusiva de Poesia e Ficção em seu Estado. Foi um dos fundadores e primeiro presidente da Associação Capixaba Escritores. Integrou a equipe responsável pela implantação da TV Educativa no ES, como produtor e apresentador.
Os poemas constantes desta antologia, que ele dedica à memória dos seus pais, Claudionor de Britto e Natalina Morais, e aos seus filhos Arthur Ruy de Britto e Leonardo Ramon de Britto, são do livro inédito "Dunas de Marfim".
Olhar de infância
Penetrei pela enorme profundeza
Deste mar colorido de teus olhos
Triste azul. Melancólica tristeza.
Penedo transformado sem escolhos.
Penetrei. Nadador por ter andado.
Suicida solitário. O mar azul
Logo cobriu-me num estranho fado
Quem em vez do Norte, descobriu o Sul.
Azul dentro do azul. A maresia
Marítimos escombros desvendava
E os sonhos que eu fazia, desfazia,
Desfazendo um abismo à idéia escrava.
Afoguei-me no fundo da distância
De um olhar, que busquei por minha infância.
Ives Gandra
Orfeu
Nenhuma estrela havia, em seu olhar.
Um silêncio noturno mal rondava
O muro esmuguecido do pomar,
Cujo fruto sua alma alimentava.
À noite era, porém, linda e presente,
Coberta a lua por escura fronha,
Era a noite do tempo inexistente,
A noite, que consola o mal, que sonha.
Mesmo assim cobrava-se de morte.
Um olhar negro é duplo e, se empoçado
Em funda sensação, encerra a sorte
De um outro olhar no olhar cio próprio fado.
Nenhuma estrela havia. Havia Orfeu,
Lembrando-se da amada que morreu.
Ives Gandra
Pelo caminho de teus olhos
O recesso intocável de tua alma
Invadi, repentina e mudamente,
Através de momento, cuja palma
Cruzou pelos teus olhos, diferente.
A profundez longínqua foi semente
Do sucesso, que trouxe após a calma,
E a conquista desfeita, docemente,
Conquistou o senhor, que hoje te ensalma
Do assalto não mais resta que o caminho,
Onde, silente, entrei, despercebido,
Cuidando retirar—me, por inteiro.
Perdi-me, todavia, e não sozinho
Retornei, muito estranho e sem sentido,
De teu recesso eterno prisioneiro.
Ives Gandra
Soneto de vida interior
Senhor, põe-me, outra vez, à Tua frente
E faze-me encontrar o Teu caminho.
Perdido fui e sou, se de repente
Somente a mim me entregas e sozinho.
Quantas vezes me sinto diferente
E volto a ser, no tempo, descaminho!
Quantas vezes Te fito e sou descrente
E, no espaço, me faço agreste espinho!
Senhor, mostra-me sempre o Teu amor,
Qual tesouro enterrado num terreno,
Valendo mais que todos, pois que é vida.
E faze-me Teu filho no que for
A vivência daquele tom sereno,
Que me leva à chegada da partida.
Ives Gandra
Teu silêncio
O Teu silêncio busco desvendar,
Nas névoas de uma estrada, que não trilho,
Sendo aquele que tem cansado o olhar
E que luta por ser chamado filho.
O Teu silêncio é forte e muito fraca
A força que projeto na procura,
Alicerce desfeito sem estaca,
Luz apagada em plena noite escura.
O Teu silêncio vive em minha vida,
Cujo curso reduz o seu caminho,
Mas ando sempre e sinto esta ferida
Que a rosa nunca faz, mas faz o espinho.
O Teu silêncio eu sei, porém, um dia.
Será descortinado e a minha via.
Ives Gandra
CICATRIZES DO TEMPO
Cicatrizes do tempo formam rugas,
Desfigurando seres pela vida.
Por mais que se vislumbrem novas fugas,
Haverá sempre o dia da partida.
As almas, muitas vezes, ficam nuas,
Descortinando assim tais cicatrizes,
Contorcidas nos troncos e nas ruas
Dos abismos sem fim e sem matrizes.
Não se limpam da pele as rudes marcas,
Mas podem se limpar tatuagens d’alma,
Tornando as tristes nódoas, nódoas parcas,
Na busca da verdade, eterna e calma.
Quem luta, na existência, por ser forte,
Liberdade terá na sua morte.
Jaguariúna, 20/11/08.
Ives Gandra
A Primavera eterna
A pátena do tempo é mais intensa,
Cobrindo o temporal e o intemporal,
Com um toque que o sonho não dispensa,
Como o mar que na praia põe o sal.
Não há no nosso amor porém as rugas,
Nem corre em nossas veias o cansaço,
Como em Bach os prelúdios geram fugas,
Sorvemos este bem em todo o espaço.
Desde cedo dedico-te, meu verso,
com a mesma imensidade, todos anos,
Tu és, posso dizer-te, um Universo,
Onde imperas com ares soberanos.
Amor de meu amor, amor eterno,
Que sempre em primavera torna o inverno.
Rio, 08/04/2008.
Ives Gandra
i
COMPASSO DERRADEIRO
No compasso do tempo gero teias,
Que se emaranham em torno de meu mundo,
Neste relógio feito por areias,
Endereçadas para um chão sem fundo.
Dentre a cimeira parte pouco resta,
Quase tudo passado da medida.
A vida não foi luto, nem foi festa,
Como não foi também toda perdida.
A derradeira areia está bem perto
E meu último passo bem à vista.
O canto continua no deserto,
Sem saber de seu fim quant’inda dista.
Neste tempo renovo um só compasso,
Que formatou, na luta, meu espaço.
Jaguariúna, 01/05/2009.
Ives Gandra
Praia
Peixes, cardumes,
Ondas, queixumes,
Verão.
Belas morenas
Tardes serenas
Paixão.
Mares profundos,
Olhos bem fundos,
Tristeza.
Pernas divinas,
Lindas meninas,
Beleza.
Beijos, lamentos
Soltos aos ventos
Apenas.
Sangue nas veias
Brancas areias
Amenas.
Santos, outubro 1949 (14 anos).
Ives Gandra
CICATRIZES DO TEMPO
Cicatrizes do tempo formam rugas,
Desfigurando seres pela vida.
Por mais que se vislumbrem novas fugas,
Haverá sempre o dia da partida.
As almas, muitas vezes, ficam nuas,
Descortinando assim tais cicatrizes,
Contorcidas nos troncos e nas ruas
Dos abismos sem fim e sem matrizes.
Não se limpam da pele as rudes marcas,
Mas podem se limpar tatuagens d’alma,
Tornando as tristes nódoas, nódoas parcas,
Na busca da verdade, eterna e calma.
Quem luta, na existência, por ser forte,
Liberdade terá na sua morte.
Jaguariúna, 20/11/08.
Ives Gandra
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
ESCONDE – ESCONDE
ESCONDE – ESCONDE
No azul de verão
sol e nuvem, distraídos,
brincam de esconder.
Delores Pires
In: Voo
No azul de verão
sol e nuvem, distraídos,
brincam de esconder.
Delores Pires
In: Voo
LUNAR II
LUNAR II
Escuro da mata.
A lua deixa no chão
respingos de prata.
Delores Pires
In: O Livro dos Haicais
Escuro da mata.
A lua deixa no chão
respingos de prata.
Delores Pires
In: O Livro dos Haicais
LUNAR I
LUNAR I
No tapete verde
de folhas a luz mostra
os retalhos brancos.
Delores Pires
In: O Livro dos Haicais
No tapete verde
de folhas a luz mostra
os retalhos brancos.
Delores Pires
In: O Livro dos Haicais
Assinar:
Postagens (Atom)




























