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quarta-feira, 26 de maio de 2010

ABGAR REANULT


Abgar de Castro Araújo Renault

Nasceu em Barbacena, 15 de abril de 1901 —MG- e faleceu em 31 de dezembro de 1995 no Rio de Janeiro.

Foi um professor, educador, político, poeta, ensaísta e tradutor brasileiro. Ocupou a cadeira número 12 da Academia Brasileira de Letras.

Era filho de Léon Renault e de Maria José de Castro Renault. Foi casado com D. Ignês Caldeira Brant Renault, com quem teve dois filhos, Caio Márcio e Luiz Roberto.

Sua formação escolar deu-se toda em Belo Horizonte, onde começou a exercer o magistério. Trabalhou como professor no Ginásio Mineiro de Belo Horizonte, e na Universidade Federal de Minas Gerais. Mudou-se posteriormente para o Rio de Janeiro onde deu aulas no Colégio Pedro II e na Universidade do Distrito Federal.

Foi eleito deputado estadual por Minas Gerais, e exerceu o cargo de direção no Colégio Universitário da Universidade do Brasil e no Departamento Nacional da Educação. Foi ainda Secretário da Educação do Estado de Minas Gerais em dois governos, quando se notabilizou por incentivar o ensino no meio rural. Depois disso foi também Ministro da Educação e Cultura e Ministro do Tribunal de Contas da União.

Foi membro da Academia Mineira de Letras, da Academia Municipalista de Letras de Belo Horizonte e da Academia Brasiliense de Letras. Pertenceu ao Instituto de Estudos Latino-Americanos da Universidade de Stanford, Califórnia, EUA, e foi Presidente da Sociedade Brasileira de Cultura Inglesa de Belo Horizonte.

Abgar Renault registrou todos os seus estudos e reflexões em "A palavra e a ação" de 1952 e em "Missões da Universidade" de 1955. Além disso, foi um grande poeta. Fez parte do grupo surrealista moderno e participou do movimento modernista de Minas Gerais. A partir daí aumentou sua participação na literatura contemporânea. Apesar de ter sua obra associada ao Modernismo, fazia uma poesia original, não ligada a nenhuma escola poética.

Como tradutor especializou-se em poetas alemães, espanhóis, ingleses, estado-unidenses, e franceses. Era um especialista em Shakespeare. Sua poesia tem sido incluída em antologias no Brasil e no exterior.

Foi eleito em 1º de agosto de 1968 tomando posse em 23 de maio de 1969 da Cadeira nº 12, que tem por Patrono França Júnior, com saudação pelo acadêmico Deolindo Couto, sendo o seu 5º ocupante.

SONETO ONÍRICO

No rumo do corrupto firmamento
a chuva chove a sua chuva inata
e o cavalo de som de negro vento
verticalmente voa se arrebata.

Entra a palavra azul num pensamento,
e um silêncio de vozes se desata;
crescem mares no tanque do momento,
surge de cada canto um cascata.

Sombras intersexuais desfilam nuas,
carregando verônicas de luas
nas caprichosas mãos de lírios e árias.

Prado viúvos se vestem de namoro
e abrem as flores guarda-chuvas de ouro
sob o sol das piscinas planetárias.

1952



Abgar Renault
In: Obra In: Obra Poética

EPISÓDIO

Ah! sombra de asa fugitiva
no solo adusto e desolado
deste deserto ensolarado,
sem nem sequer uma miragem
no desespero da viagem...
Ah! sombra de asa fugitiva.


Abgar Renault
in Obra Poética

RETORNO DE PASÁRGADA

Do que vi, do que fiz, do que compus, do que andei
nos palácios, nas ilhas, nas selvas, nos astros da rainha do rei,
só ficou este repleto silêncio, a unânime solidão
que escorre, negro luar, de dentro para fora,
e desce a rampa onde enterrei a aurora.
De tudo, na tristeza de cinza de cada mão.
trouxe uma flor defunta e, na profundidade do meu chão,
dura lágrima que não usarei.


Abgar Renault
In: Obra Poética

SOLIDÃO

O rio se entristece sob a ponte.
Substância de homem na torrente escura
flui, enternecimento ou desventura,
misturada ao crepúsculo bifronte.

Antes que débil lume além desponte,
a sombra, que se apressa, desfigura
e apaga o casario em sua alvura
e a curva esquiva e sábia do horizonte.

Os bois fecham nos olhos os arados,
o pasto, a hora que tomba das subidas.
Dorme o ocaso, pastor, entre as ovelhas.

Sobem névoas dos vales fatigados
e das árvores já enoitecidas
pendem silêncios como folhas velhas.

29.12.51


Abgar Renault
In: Obra Poética

CANÇÃO OCULTA

A onda de mar e céu, redonda,
durou nos ares um sorriso.
Nenhum poder claro ou inviso
deteve no ar a débil onda.

Um esvair-se em vácuo e treva
do vôo da ave itercadente.
Música silenciosamente
mergulhada, que o tempo leva.

O sonho côncavo buscando-se
no aço do espelho convexo,
que ria incólume, sem sexo,
sem uma imagem, mas brilhando.

O gesto de nuvens e de águas,
a aragem, a palavra, a rosa,
a intraduzível, soluçosa
sombra de vento sobre as águas.


Abgar Renault
In: Obra Poética

PEQUENO QUADRO DE QUALQUER DIA DE VERÃO

Vagos ruídos de construção distante.
Vozes de crianças a disputar o vento que passa.
Árvores antigas inclinam-se pesadas
sob incisivas inscrições de eternos amores esquecidos
Longe, nas águas repousadas,
brincam e somem-se súbitos clarões
indecisos entre claro azul e não sei que verde.
Sob restos de um sol suarento a tarde
busca um simulacro de arrepio;
caminha a noite, a mesma noite de todo sempre e nunca:
deserto e insone o coração afunda-se na treva.


Abgar Renault
In: Obra Poética

ERAT HORA

Era nítida a hora e, nela ocultos,
ninhos arfavam sufocados:
não ouviste os afligidos pássaros,
não colheste a flor pendente que se fingia esquiva.
E, todavia, aquela foi a hora, a única, a só;
não retornará no teu quadrante já em sol.
Quebra os pulsos, morde a língua, rompe os lábios
e pede ao primeiro passante que te enterre vivo
sob a cinza da hora que deixaste passar,
da hora diante de cujos umbrais recuaste,
-a clara porta escancarada em fior.


Abgar Renault
In: Obra Poética

FRIO DIA DE CHUVA

E sou o mesmo que saí.
Volto e me vejo como me vi.
Nada de novo me aconteceu.
Eu sou irremediavelmente um só: eu,
eu da cabeça aos pés.

Mas não trouxe o que fora comigo:
alguma coisa me ficou perdida
nas ruas, nos passeios, nos cafés,
e estou ausente, molhado, amigo e inimigo,
entre mulheres, vagabundos, crianças, o frio, a chuva desta vida.

Abgar Renault
in Obra poética

EM VIAGEM

Montanhas, vales, céus – tudo nevoento.
Toda a paisagem num burel de bruma,
que ora se adensa, ora se esgarça e esfuma,
e é um bocejo de tédio e desalento

Planície aqui; além surge e se apruma
o cabeço de um monte. Agora, lento,
um rio serpenteia e, sem intento,
despenha, ao longe, vórtices de espuma.

Desperta, enfim, minh’alma adormecida,
numa ânsia intensa de emoções estranhas ...
A dor é um triste aceno que me convida ...

Saudade minha! és tu que me acompanhas,
através da tristeza indefinida
destes céus, destes vales e montanhas.


Abgar Renault
in Obra Poética

QUATRO VELAS

Era uma paisagem de fluidez de luz,
que abria a luz e nela recortava os seus contornos.
Eua vira uma vez, antes de vê-la,
como quem adivinha dentro da escuridão
uma presença ou ainda atrás do céu
a forma, a cor e o fogo de uma estrela,
e a reconhece toda quando raia.
Vi-a depois (em que mar? junto a que praia?)
e, buscando-a, navegaram uma água verde e lisa
as minhas quatro velas rubras e tontas ...

Fulgura uma só vez em cada mundo essa visão.
Não reaparecerá. E para que aparecer de novo ?
As órbitas vazias não saberão que já tiveram olhos,
a memória será vento e areia para que nada lembre
e, coberta de pedras, de musgos e de mofo,
a vida já terá enoitecido para sempre.


Abgar Renault
in Obra Poética

A BUSCA

Como foi preciso distanciar-me de ti
para encontrar-te!
Oh! a sublevação das ondas do meu mar!
Oh! o desvio da bússola e da proa
que buscavam, sem saber, o teu porto ambíguo
e o teu cais sem degraus sob a noite de água e pedra,
os arredores da tua vida.


Abgar Renault
in Obra Poética

DE NINGUÉM

São do olhar(de mais nada de ninguém)
a luva ardente e a rosa abandonadas;
a solidão dos braços com braçadas
de áspides, de papoulas e de além;

e, esquecida de quando, o que e quem,
a forma de sozinhas alvoradas,
com luzes para todas as estradas
e as mesmas bordas que o infinito tem.

Não terás, minha mão, a solta luva,
nem fecharei em mim a nua rosa;
dos braços sem abraços não verei

as curvas de ouro e de ouro em minha curva,
- e atiro mágoa e vida à boca ansiosa
cujo silêncio não conhecerei.


Abgar Renault
in Obra Poética

TEMA ETERNO

Amar-vos sem sonhar breve esperança
de na fuga dos dias vos reter
- eis, Dama, cujo desamor não cansa,
meu cego modo natural de ser.

Dobrado à vossa face de esquivança,
volvendo acre pesar em vão prazer,
de si não tem nenhuma segurança
quem vos quer sem querer e por querer.

Sou afligido barco de naufrágios,
cheio de estrelas, de corais e rosas;
deste impossível no impassível mar

soçobrarei, levando estes presságios,
esta carga, estas velas já saudosas
da loucura do inútil navegar.

Abgar Renault
in Obra poética – l.990 -

VAI CHOVER

Vai chover, e eu vou estar mais triste.
Chuva é distância: esfuma, apaga, esconde.
Doerei por não saber por não saber se ainda existe
o verde luar e sonha um quando e um onde.

(É talvez mais mortal haver sorrido
que ter chorado: talvez guarde a boca
sombras que os o,lhos já terão perdido...)
Sinto distância em mim. A vida é oca,

e dentro dela chovo, transbordando,
minha cinza, meu longe, estes em que ando
restos de sons e faces de arrebol;

e vejo entre submissa névoa e vento
reabrir-se em curva de ouro o pensamento
das horas que moraram no teu sol.



Abgar Renault
Obra Poética – l.990 –

DESINTEGRAÇÃO

Eu tenho o coração cheio de coisas para dizer...
E a minha voz, se eu acaso falasse,
teria a força de uma revelação!
Meu espírito palpita ao ritmo desordenado e aflito
de asas prisioneiras que se dilaceraram
na arrancada impossível da libertação e da altura.
Minhas mãos tremem ainda ao contato
imaterial, sobre-humano e fugitivo
de qualquer coisa além e acima deste mundo...
Adormeceu para sempre no fundo dos meus olhos
a saudade de paisagens estranhas e longínquas,
que nunca, nunca mais voltarão neste tempo e neste espaço.
Doem meus olhos. Tremem, ansiosas, as minhas mãos.
Meu espírito palpita. Tenho o coração cheio de coisas para dizer...
Eu estou vivo, Senhor! mas, em verdade, é como se estivesse morto...


Abgar Renault

BALADA DA IRREMEDIÁVEL TRISTEZA

Eu hoje estou inabitável...
Não sei por quê,
levantei com o pé esquerdo:
o meu primeiro cigarro amargou
como uma colherada de fel;
a tristeza de vários corações bem tristes
veio, sem quê, nem por quê,
encher meu coração vazio...vazio...
Eu hoje estou inabitável...
A vida está doendo...doendo...
A vida está toda atrapalhada...
Estou sozinho numa estrada
fazendo a pé um raid impossível.
Ah! se eu pudesse me embebedar
e cambalear...cambalear...
cair, e acordar desta tristeza
que ninguém, ninguém sabe...
Todo mundo vai rir destes meus versos,
mas jurarei por Deus, se for preciso:
eu hoje estou inabitável...


Abgar Renault
Obra Poética – 1.990 –

MANHÃ

Silenciosa manhã ! A minha estrada,
prevendo longe tanto céu desperto,
acorda a linha dúbia do deserto
e embarca na distância iluminada.

De entressonhar o teu fulgor tão perto,
recompõe-se partida badalada
e enganoso esplendor de tudo ou nada
ilude gasto calendário aberto.

O desejoso chão de águas chorosas,
este ar, a cor de dúvida das rosas
esperam com seu canto retardio

a chegada sem voz do teu minuto,
teu sorrir, tua luz, teu verde fruto
e o jamais do teu fúlgido navio.


Abgar Renault
Obra Poética – 1.990 -

SONETO DO EQUÍVOCO

Como se eu fosse este ar que atravessaste,
conservo em mim o rastro reticente
de linhas de água, fogo, asa e serpente,
composição de Deus erguida em haste.

Como se fosse o rio que cruzaste,
sonho uma barca de ouro transcendente,
que me navega tempestuosamente
com seus remos de música e contrasta.

Como se fosse o espelho em que te viste,
fende-se em minha sombra um cristal triste.
(Flores e ninhos buscam tua mão.)

Como se fosse o deus a quem amasses,
compreendo o fluido rosto de mil faces,
do alto leio a raiz no último chão.


Abgar Renault
Obra Poética – 1.990 –

SONETO MELANCÓLICO

Quando o teu sol de luar de ti se esquece,
e seus raios, ausentes, se consomem
sobre o pesar, a nódoa, o abismo e a prece
da minha obscura circunstância de homem;

ou quando a sombra do teu dedo cobre
a minha estrada e a minha sede antigas,
e o teu rumor lava o meu mundo pobre,
com arco-íris, ovelhas e cantigas;

ou, no ar, a tua forma transeunte
relâmpagos escreve, e frutos, e ondas,
não sei o que suplique, nem pergunte,

e bebo o escuro do silêncio aberto,
por temer, ó manhã, que me respondas
tua escada de fogo e o meu deserto.


Abgar Renault
Obra Poética – 1.990 -