segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Canção de muito longe



Foi-por-cau-sa-do-bar-quei-ro
E todas as noites, sob o velho céu arqueado de bugigangas,
A mesma canção jubilosa se erguia.
A canoooavirou
Quemfez elavirar? uma vos perguntava.

Os luares extáticos...

A noite parada...

Foi por causa do barqueiro
que não soube remar.


Mario Quintana

O poeta começa o dia


Pela janela atiro meus sapatos, meu ouro, minha alma ao meio da rua.
Como Harum-al-Raschid, eu saio incógnito, feliz de desperdício...
Me espera o ônibus, o horário, a morte - que importa?
Eu sei me teleportar: estou agora
Em um Mercado Estelar... E olha!
Acabo de trocar
- em meio aos ruídos da rua
alheio aos risos da rua -
todas as jubas do Sol

por uma trança da Lua!

Mario Quintana

Canção da Noite Alta



Menina está dormindo.
Coração bolindo.
Mãe, por que não fechaste a janela?
É tarde, agora:
Pé ante pé
Vem vindo
O Cavaleiro do Luar.
Na sua fronte de prata
A lua se retrata.
No seu peito
Bate um coração perfeito.
No seu coração
Dorme um leão,
Dorme um leão com uma rosa na boca.
E o príncipe ergue o punhal no ar:
. . . um grito
aflito. . .
Louca!



Mário Quintana
In: Canções

Canção Azul



Triste, Poeta, triste a florinha azul que sem querer
Pisaste no teu caminho. . .
Miosótis, - disseste, inclinado um instante sobre ela.
E ela acabou de morrer, aos poucos, dentre a relva úmida.
Sem nunca ter sabido que se chamava miosótis.
Nem que iria impregnar, com o seu triste encanto,
O teu poema daquele dia. . .



Mário Quintana
In: Canções

Canção de um Dia de Vento



Para Maurício Rosenblatt

O vento vinha ventando
Pelas cortinas de tule.

As mãos da menina morta
Estão varadas de luz.
No colo, juntos, refulgem
Coração, âncora e cruz.

Nunca a água foi tão pura. . .
Quem a teria abençoado?
Nunca o pão de cada dia
Teve um gosto mais sagrado.

E o vento vinha ventando
Pelas cortinas de tule. . .

Menos um lugar na mesa,
Mais um nome na oração,
Da que consigo levara
Cruz, âncora e coração

(E o vento vinha ventando. . .)

Daquela de cujas penas
Só os anjos saberão!



Mário Quintana
In: Canções

A Canção que Não Foi Escrita



Alguém sorriu como Nossa Senhora à alma triste do Poeta.
Ele voltou para casa
E quis louvar o bem que lhe fizeram.

Adormeceu. . .

E toda a noite brilhou no sono dele uma pobre estrelinha perdida,
Trêmula
Como uma luz contra o vento. . .


Mário Quintana
In: Canções

Canção de Vidro




E nada vibrou. . .
Não se ouviu nada. . .
Nada. . .

Mas o cristal nunca mais deu o mesmo som.
Cala, amigo. . .
Cuidado, amiga. . .
Uma palavra só
Pode tudo perder para sempre. . .

E é tão puro o silêncio agora!


Mário Quintana
In: Canções

Canção da Primavera


Para Erico Veríssimo

Primavera cruza o rio
Cruza o sonho que tu sonhas.
Na cidade adormecida
Primavera vem chegando.

Catavento enlouqueceu,
Ficou girando, girando.
Em torno do catavento
Dancemos todos em bando.

Dancemos todos, dancemos,
Amadas, Mortos, Amigos,
Dancemos todos até
Não mais saber-se o motivo. . .

Até que as paineiras tenham
Por sobre os muros florido!



Mário Quintana
In: Canções

NOTURNO CITADINO



Um cartaz luminoso ri no ar.
Ó noite, ó minha nega
toda acesa
de letreiros!... Pena
é que a gente saiba ler... Senão
tu serias de uma beleza única
inteiramente feita
para o amor dos nossos olhos.



Mário Quintana
In: Esconderijos do Tempo

POEMA EM TRÊS MOVIMENTOS



I

Nossos gestos eram simples e transcendentais.
Não dissemos nada
nada de mais...
Mas a tarde ficou transfigurada
-como se Deus houvesse mudado
imperceptivelmente
um invisível cenário.


II

Eu te amo tanto que
sou capaz de nos atirarmos os dois na cratera do Fuji-Yama!
Mas, aqui,
o amor é um barato romance pornô esquecido em cima da cama
depois que cada um partiu – sem saionara nem nada –
por uma porta diferente.


III

E em que mundo? em que outro mundo vim parar,
que nada reconheço?
Agora, a tua voz nas minhas veias corre...
o teu olhar imensamente verde ilumina o meu quarto.



Mário Quintana
In: Esconderijos do Tempo

EU FIZ UM POEMA



Eu fiz um poema belo
e alto
como um girassol de Van Gohg
como um copo de chope sobre o mármore
de um bar
que um raio de sol atravessa
eu fiz um poema belo como um vitral
claro como um adro...
Agora
não sei que chuva o escorreu
suas palavras estão apagadas
alheias uma à outra como as palavras de um dicionário.
Eu sou como um arqueólogo decifrando as cinzas de uma
cidade morta.
Ou vulto de um velho arqueólogo curvado sobre a terra...
Em que estrela, amor, o teu riso estará cantando?



Mário Quintana
In: Esconderijos do Tempo

A CANÇÃO DO MAR


Esse embalo das ondas
Das ondas do mar
Não é um embalo
Para te ninar...

O mar é embalado
Pelos afogados!

O canto do vento
Do vento no mar
Não é um canto
Para te ninar...

São eles que tentam
Que tentam falar!

Tiveram um nome
Tiveram um corpo
Agora são vozes
Do fundo do mar...

Um dia viremos
Vestidos de algas

Os olhos mais verdes
Que as ondas amargas

Um dia viremos
Com barcos e remos

Um dia...

Dorme, filhinha...
São vozes, são vento, são nada...



Mário Quintana
In: Esconderijos do Tempo

IX Da Inquieta Esperança



Bem sabes Tu, Senhor, que o bem melhor é aquele
Que não passa, talvez, de um desejo ilusório.
Nunca me dês o Céu. . . quero é sonhar com ele
Na inquietação feliz do Purgatório. . .


Mário Quintana
In: Espelho Mágico

VII Dos Mundos



Deus criou este mundo. O homem, todavia,
Entrou a desconfiar, cogitabundo. . .
Decerto não gostou lá muito do que via. . .
E foi logo inventando o outro mundo.


Mário Quintana
In: Espelho Mágico

VII Da Voluptuosidade



Tudo, mesmo a velhice, mesmo a doença,
Tudo comporta o seu prazer. . .
E até o pobre moribundo pensa
Na maneira mais suave de morrer. . .


Mário Quintana
In: Espelho Mágico

VI Do Cuidado da Forma



Teu verso, barro vil,
No teu casto retiro, amolga, enrija, pule. . .
Vê depois como brilha, entre os mais, o imbecil,
Arredondado e liso como um bule!


Mário Quintana
In: Espelho Mágico

V Das Belas Frases



Frases felizes. . . Frases encantadas. . .
Ó festa dos ouvidos!
Sempre há tolices muito bem ornadas. . .
Como há pacóvios bem vestidos.


Mário Quintana
In: Espelho Mágico

IV Da Preocupação de Escrever


Escrever. . . Mas por quê? por vaidade, está visto. . .
Pura vaidade, escrever!
Pegar da pena. . . Olhai que graça terá isto,
Se já se sabe tudo o que se vai dizer!. . .


Mário Quintana
In: Espelho Mágico

III Do Estilo



Fere de leve a frase. . . E esquece. . . Nada
Convém que se repita. . .
Só em linguagem amorosa agrada
A mesma coisa cem mil vezes dita.


Mário Quintana
In: Espelho Mágico

Não, não é uma série de pontos de exclamação
-é uma avenida de álamos...
E o quê, e para quem, clamariam então?!
Deserta está a cidade.
Todas as avenidas, todas as ruas, todas as estradas, atônitas
se perguntam se vêm ou se vão...
Em nada lhes poderiam servir esses postes de quilometragem:
estão apenas desenhados, como um mapa.
Ah, se houvesse uns passos, ainda que fossem solitários...
Se houvesse alguém andando sozinho... e bastava! São os passos

-são os passos que fazem os caminhos.
Deserta está a cidade.
Se houvesse alguém andando sozinho
-para ele se acenderiam então, como um olhar, todas as cores!

Porque a cidade está cega, também.
O que não é visto por ninguém
não se sabe a cor e o aspecto que tem.
A cidade está cega e parada com a descor de um morto.
Porque tudo aquilo que jamais é visto
-não existe...



Mário Quintana
In: Esconderijos do Tempo

II Do Amigo



Olha! É como um vaso
De porcelana rara o teu amigo.
Nunca te sirvas dele. . . Que perigo!
Quebrar-se-ia, acaso. . .


Mário Quintana
In: Espelho Mágico

I Da Observação



Não te irrites, por mais que te fizerem. . .
Estuda, a frio, o coração alheio.
Farás, assim, do mal que eles te querem,
Teu mais amável e sutil recreio. . .


Mário Quintana
In: Espelho Mágico

As Belas, As Perfeitas Máscaras



As belas, as perfeitas máscaras de perfil severo
Que a morte, no silêncio, esculpe,
Encheram-se de uma estranha claridade...
Que anjos tocam, através do mundo e das estrelas,
Através dos sensíveis rumores,
O canto grave dos violoncelos profundos?
Alma perdida, vagabunda, Messalina sonâmbula,
insaciada...

Que procuras na noite morta, Alma transviada,
Com tuas mãos vazias e tristes?
Cantam os violoncelos... A noite sobe como um
balão...

Meus olhos vão ficando cada vez mais lúcidos...
Soluçam os violoncelos... Ah,
Como é gelado o teu lábio,
Pura estrela da manhã!


Mario Quintana;
in Aprendiz de Feiticeiro

No silêncio Terrível



No silêncio terrível do Cosmos
Há de ficar uma última lâmpada acesa.
Mas tão baça
Tão pobre
Que eu procurarei, às cegas, por entre papeis
revoltos,

Pelo fundo dos armários,
Pelo assoalho, onde estarão fugindo imundas
ratazanas,

O pequeno crucifixo de prata
- O pequenino, o milagroso crucifixo de prata que
tu me deste um dia

Preso a uma fita preta.
E por ele os meus lábios convulsos chorarão
Viciosos do divino contato da prata fria...
Da prata clara, silenciosa, divinamente fria - morta!
E então a derradeira luz se apagará de todo...



Mario Quintana;
in : Aprendiz de Feiticeiro

Cântico


O vento verga as árvores, o vento clamoroso da
aurora...

Tu vens precedida pelos vôos altos,
Pela marcha lenta das nuvens.
Tu vens do mar, comandando as frotas do
Descobrimento!

Minh'alma é trêmula da revoada dos Arcanjos.
Eu escancaro amplamente as janelas.
Tu vens montada no claro touro da aurora.
Os clarins de ouro dos teus cabelos na luz!


Mario Quintana;
in Aprendiz de Feiticeiro

Mundo




E eis que naquele dia a folhinha marcava uma data em caracteres

desconhecidos,
Uma data ilegível e maravilhosa.

Quem viria bater à minha porta?

Ai, agora era um outro dançar, outros os sonhos
e incertezas,

Outro amar sob estranhos zodíacos...

Outro...

E o terror de construir mitologias novas!


Mario Quintana;
in O Aprendiz de Feiticeiro

DE REPENTE



Olho-te espantado:
Tu és uma estrela do mar.
Um mistério estranho.
Não sei...

No entanto,
O livro que eu lesse,
O livro na mão,
Era sempre o teu seio!

Tu estavas no morno da grama,
Na polpa saborosa do pão...

Mas agora encheram-se de sombra os cântaros

E só o meu cavalo pasta na solidão.


Mário Quintana
in O aprendiz de feiticeiro

OBSESSÃO DO MAR OCEANO



Vou andando feliz pelas ruas sem nome...
Que vento bom sopra do Mar Oceano!
Meu amor eu nem sei como se chama,
Nem sei se é muito longe o Mar Oceano...
Mas há vasos cobertos de conchinhas
Sobre as mesas... e moças na janelas
Com brincos e pulseiras de coral...
Búzios calçando portas... caravelas
Sonhando imóveis sobre velhos pianos...
Nisto,
Na vitrina do bric o teu sorriso, Antínous,
E eu me lembrei do pobre imperador Adriano,
De su'alma perdida e vaga na neblina...
Mas como sopra o vento sobre o Mar Oceano!
Se eu morresse amanhã, só deixaria, só,
Uma caixa de música
Uma bússola
Um mapa figurado
Uns poemas cheios de beleza única
De estarem inconclusos...
Mas como sopra o vento nestas ruas de outono!
E eu nem sei, eu nem sei como te chamas...
Mas nos encontramos sobre o Mar Oceano,
Quando eu também já não tiver mais nome.


Mario Quintana
in O aprendiz de Feiticeiro

O POEMA



Um poema como um gole d’água bebido no escuro.
Como um pobre animal palpitando ferido.
Como pequenina moeda de prata perdida para sempre na floresta noturna.
Um poema sem outra angústia que a sua misteriosa condição de poema.
Triste.
Solitário.
Único.
Ferido de mortal beleza.


Mario Quintana
in 'O aprendiz de Feiticeiro"

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

'O instante do Olhar"


Há um espaço vazio
naquele olhar
que viaja,
e contempla
e espera.

De repente, encontra
outro olhar
perdido...
e os olhares
se buscam
e se acham.

O instante
fez-se poema
com olhares apenas.


Luiz Eduardo Gunther
(Curitiba-PR)